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As origens do modelo CSA - Community Supported Agriculture

Por Cleber Alexandre 

9 de março de 2018

Como o CSA começou? O formato moderno da comunidade que suporta a agricultura tem suas origens nas décadas de 70 e 80, em países diferentes e distantes entre si. É uma daquelas ideias fortes que, quando sua hora chega, simplesmente acontece - independentemente do local ou do tempo.

A CSA de Bocaiúva do Sul, no Paraná, é uma associação entre três produtores da região e entrega hortaliças, legumes, frutas na cesta padrão; além de ovos e fubá para quem encomenda.

Nomenclaturas

No Brasil, chamamos de CSA - Comunidade que Sustenta a Agricultura. É uma sigla convenientemente idêntica à americana, CSA, que significa community supported agriculture. No Japão, esse modelo é conhecido como Teikei - parceria, em japonês.

Em Portugal a CSA é conhecida como Recíproco, na França é AMAP (association pour le maintien d’une agriculture paysanne).

Nas regiões do Canadá em que se fala francês, dizem ASC (agriculture soutenue par la communaute).

Japão, década de 70

Teruo Ichiraku (1906-1994) era filósofo e líder de cooperativas agrícolas. Naquela época, já alertava seus colegas sobre os perigos do uso de pesticidas nos alimentos e até começou um movimento a favor da agricultura orgânica.

Paralelamente, grupos de donas de casa, também preocupadas com a qualidade da sua alimentação, agrupavam-se para estabelecer parcerias de distribuição direta com produtores rurais e obter comida de qualidade e com maior segurança.

Na mesma época, um agricultor chamado Yoshinori Teruo percebeu que sua propriedade poderia dar conta de alimentar outras dez famílias além da sua, mas ao invés de simplesmente vender o excesso da produção, iniciou um experimento em sua comunidade. Primeiro ele fundou um grupo de leituras com moradores da sua região. Quatro anos mais tarde, após muito estudo, relacionamento e convivência, aquelas pessoas resolveram fundar um dos primeiros grupos da moderna CSA de que se tem notícia.

Ações como essas foram, aos poucos, dando forma ao movimento conhecido hoje como Teikei. O movimento ainda existente no Japão, conta com milhões de associados e é referência mundial sobre CSA.

Foto da atual CSA suíça Les Jardins de Cocagne, de 2015, pelo fotógrafo Ove Rasmussen.

Suíça, década de 70

Segundo as fontes pesquisadas (e disponíveis no final deste artigo), o movimento da CSA na Europa e Estados Unidos não tiveram influência do Teikei japonês. Apesar das similaridades, a CSA europeia e americana tiveram a influência de um dos principais pilares da agricultura biodinâmica de Rudolf Steiner: a parceria entre produtores e consumidores, a partir de interesses compartilhados.

Outras influências para os suíços foram o movimento camponês que acontecia na Inglaterra e na França; e a política das fazendas coletivas do Chile durante o regime de Allende (1970-73).

Em 1978 deu-se início, em Genebra, a Les Jardins de Cocagne com 30 membros. O modelo era de uma cooperativa entre produtores e consumidores, com a finalidade de financiar com antecedência a produção dos seus alimentos para a próxima safra.

Hoje, com 40 anos de existência, a Les Jardins Cocagne é um exemplo da importância do comprometimento entre os dois lados de uma CSA. No primeiro ano, os coprodutores comeram apenas rabanetes, a terra era alugada, não havia irrigação nem benfeitorias, mas os membros deram o suporte necessário. Hoje são cultivados mais de 50 tipos de vegetais, além de maçãs, uvas e frutas vermelhas. São cerca de 400 membros que pagam o que podem, e um percentual das receitas é destinado a uma instituição de caridade na África.

Estados Unidos, década de 80

A partir de 1985, alguns europeus como Jan Vandertuin trouxeram para os Estados Unidos a semente da CSA.

Lá, entusiastas como Robyn Van En e Trauger Groh gostaram da ideia e começaram sua disseminação em congressos, feiras e eventos, frequentemente associados à agricultura biodinâmica. Durante os anos 90 as CSAs norteamericanas se espalharam, chegando a mais de 1000 grupos até o início dos anos 2000.

A partir de então, o número de grupos de CSA e fazendas que utilizam a CSA como canal de distribuição/vendas estourou, chegando a mais de 12.000 fazendas segundo informações do Census of Agriculture de 2012.

Brasil, anos 2000

Segundo a pesquisa da edição de Abril/17 (nº 159) da Hortifruti Brasil, uma revista produzida pela ESALQ/USP, a primeira CSA brasileira começou em 2011 na cidade de Botucatu, São Paulo.

Prevê-se que há pouco mais de 60 grupos de CSA no Brasil, a maioria no Estado de São Paulo. Paraná tem duas, uma delas é da fazenda Sitioca In Lak’ech, na qual tive o prazer de realizar um estágio voluntário. Marcos, o proprietário, escolheu a abordagem de agrofloresta em um terreno de pouco mais de 2 alqueires, na cidade de Bocaiúva do Sul, região metropolitana de Curitiba - aonde estão a grande parte dos seus coprodutores.

Apesar do pioneirismo, o baixo comprometimento dos coprodutores em manterem-se ao longo do ano é o grande desafio de Marcos. Em 2017, quando conheci sua propriedade, estava utilizando cerca de 30% da sua capacidade produtiva. Ou seja, se pudesse contar com mais estabilidade dos contratos com os coprodutores, sua CSA seria viável para ele e também poderia atender o triplo de famílias.

Mantenha-se atualizado

Hoje, a Urgenci é a convergência internacional dos grupos de CSA. Realiza eventos, publicações e missões para conhecer e divulgar exemplos de CSAs de sucesso.

Sua missão é unir cidadãos, pequenos produtores, consumidores, ativistas e atores políticos de nível global por meio de uma abordagem econômica alternativa chamada Parcerias Locais Solidárias entre Produtores e Consumidores (tradução livre).

Eles têm uma newsletter muito relevante para quem gosta de CSA.

O governo norteamericano publica diversos documentos sobre a situação da agricultura orgânica e dos seus problemas, como vendas e distribuição. Neles você pode encontrar informações atuais sobre o tema.

A CSA Brasil é uma instituição sem fins lucrativos que visa fomentar o modelo da CSA em nosso país. No site deles você pode encontrar um diretório com fazendas que utilizam a CSA, além de informações e cursos sobre o tema. Visite: csabrasil.org.


Fontes:
https://urgenci.net/csa-history/
http://www.newfarm.org/features/0104/csa-history/part1.shtml
http://www.newfarm.org/features/0204/csa2/part2.shtml
https://www.ams.usda.gov/sites/default/files/media/CSANewModelsforChangingMarketsb.pdf

Você é coprodutor em uma CSA? O que levou você a fazer parte? Conte para nós!
E você que ainda não faz parte de uma CSA, quais preocupações estão impedindo você de participar?

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