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O dia a dia típico de uma fazenda agroflorestal

Por Cleber Alexandre 

23 de fevereiro de 2018

Como estagiário voluntário, tive a oportunidade de observar e conhecer as práticas agroflorestais na Sitioca In Lak’ech, em Bocaiúva do Sul - Paraná.

Esta gravação foi feita às 5h30 na manhã de um dia de trabalho:

De garçom a empresário, de empresário a produtor de orgânicos

Marcus Anãma, o proprietário do Sitioca In Lak’ech , está à frente da produção agroflorestal focada (por enquanto) em legumes e hortaliças. A propriedade possui cerca de 2 alqueires; na sua frente faz divisa com a estrada e, nos fundos, com um açude artificial contido por morro íngreme.

Os sítios da região metropolitana de Curitiba, atualmente, estão menores. As terras dali costumam ter as marcas da alta mecanização da agricultura intensiva para o cultivo de milho, feijão e cereais. Era essa a situação do sítio quando Marcos o adquiriu, no final de 2012.

Vista do terreno original. Ao fundo algumas araucárias do terreno vizinho. Terra compactada, fraca, sem a fertilidade necessária para se cultivar hortaliças. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

Vista do terreno original. Ao fundo algumas araucárias do terreno vizinho. Terra compactada, fraca, sem a fertilidade necessária para se cultivar hortaliças. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

Marcos é natural da Guatemala, de onde saiu para trabalhar em cruzeiros internacionais. Ficou nessa profissão por vários anos, até resolver montar uma empresa de recrutamento e seleção de mão de obra para navios, com uma sócia. Enquanto tocava o seu negócio, também fez diversos cursos em permacultura, agricultura orgânica, agrofloresta, controle biológico de pragas… Estudou e nutriu a sua mente na preparação para tornar-se produtor orgânico.

Marcos já comprou o terreno com a intenção de praticar a agricultura orgânica, mudar-se para lá e ter uma vida mais tranquila, próxima da natureza. Seus anos viajando em cruzeiro, e mais tarde como empreendedor, trouxeram a experiência e a paciência que o trabalho com a agricultura exige. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

Marcos já comprou o terreno com a intenção de praticar a agricultura orgânica, mudar-se para lá e ter uma vida mais tranquila, próxima da natureza. Seus anos viajando em cruzeiro, e mais tarde como empreendedor, trouxeram a experiência e a paciência que o trabalho com a agricultura exige. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

A estratégia de Marcos para sua virada de carreira foi uma exposição gradual à vida no campo, enquanto mantinha seus afazeres de empresário na capital Curitiba. À medida em que o Sitioca se tornasse financeiramente viável, ele não precisaria mais de outras fontes de renda e poderia, enfim, dedicar-se integralmente ao sítio.

Fogão à lenha: um grande motivo para morar no sítio. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

Fogão à lenha: um grande motivo para morar no sítio. Foto: arquivo pessoal de Marcos Anãma.

Já familiarizado com o ritmo da agrofloresta, e ciente do seu potencial de recuperação de solos degradados, Marcos construiu as primeiras benfeitorias e começou o seu cultivo.

Nos primeiros anos, enquanto as árvores não se desenvolviam, eram necessárias plantas de ciclo curto - como hortaliças e legumes - para estimular a saúde do solo, produzir a matéria orgânica necessária aos cultivos, e para ter algum produto para vender e, dessa forma, ajudar a pagar as despesas do sítio.

O sistema agroflorestal

Agrofloresta é uma prática de agricultura sustentável bastante adequada à realidade brasileira.

Consiste em um consórcio com espécies arbóreas e agrícolas, plantadas de forma a acelerar a ciclagem de nutrientes do solo e aumentar a sua fertilidade, ao mesmo tempo em que gera produtos de interesse agropecuário como hortaliças, legumes, frutas, cereais e fibras.

Segundo a Embrapa Agrobiologia, os Sistemas Agroflorestais (SAFs) amenizam limitações do terreno, minimizam riscos de degradação inerentes à atividade agrícola e otimizam a produtividade a ser obtida. Há diminuição na perda de fertilidade do solo e no ataque de pragas.

Diferentemente da agricultura convencional, em que o ritmo da produção é imposto pelo homem e as plantas são consideradas máquinas de produzir alimento, na agrofloresta é preciso se render aos ciclos naturais.

Para compreender esses ciclos é preciso estar disposto a passar tempo observando e buscando compreender as dinâmicas entre os fatores que compõem um sistema agroflorestal, como água, nutrientes, solo, microorganismos, pragas, plantas, homem, comunidade, animais…

Como essa compreensão costuma levar tempo, os primeiros anos de qualquer produção orgânica são os piores, e geralmente os de menor produtividade. Se o produtor consegue aguentar tempo suficiente e for disciplinado na utilização das práticas já validadas, verá uma crescente estabilização do ecossistema da sua fazenda e seus benefícios como redução de incidência de pragas, aumento natural da fertilidade do solo, melhora da saúde das plantas e, enfim, aumento de produtividade.

No caso do Marcos, que encontrou um terreno devastado, seu sistema de agrofloresta começou com o desenho dos canteiros, depósito de grandes quantidades de matéria orgânica neles e plantio da primeira geração de arbustivas e árvores baixas, como mandioca, banana, palmáceas, eucalipto, maçã e algumas nativas.

Com o passar dos anos, essas plantas geram sombra abaixo delas, retêm umidade do solo em volta de suas raízes e criam ambientes favoráveis ao crescimento saudável de outros tipos de plantas, como hortaliças e leguminosas. Nessa fase, que dura cerca de 5-7 anos, o agricultor consegue safras consistentes de hortaliças orgânicas, até que tenha um pomar de maior porte e comece a ter colheitas de frutas.

Na foto, você pode perceber hortaliças (cebolinha, couve, alface, rabanete…) crescendo em meio à palhada, nos espaços delimitados pelos canteiros. Espalhadas pela roça, temos bananeiras e outras pequenas árvores que, quando ficarem maiores, criarão outras possibilidades de cultivo abaixo delas, ao mesmo tempo em que produzirão frutas.

Na foto, você pode perceber hortaliças (cebolinha, couve, alface, rabanete…) crescendo em meio à palhada, nos espaços delimitados pelos canteiros. Espalhadas pela roça, temos bananeiras e outras pequenas árvores que, quando ficarem maiores, criarão outras possibilidades de cultivo abaixo delas, ao mesmo tempo em que produzirão frutas.

Rotinas da fazenda agroflorestal

  • Garantir que todos os canteiros tenham palhada em boas condições.
  • Garantir que nenhuma planta daninha esteja crescendo fora do controle.
  • Verificar se há alguma praga danificando as plantas de forma preocupante.
  • Aplicar, de acordo com o cronograma, insumos e corretivos como estercos, pó de rocha, cinzas ou composto.
  • Aplicar, se necessário, preventivos de pragas, geralmente caldas e preparados de origem natural.
  • Fazer a manutenção das estruturas da fazenda: cercas, porteiras, galpão, coberturas, ferramentas.
  • Fazer a limpeza das áreas comuns, especialmente aquelas utilizadas para separação, lavagem e armazenamento de produtos para venda.
  • Garantir, via sistema de irrigação, que todos os canteiros estejam com a umidade correta.
  • Trabalhar nos projetos de ampliação, reforma ou melhorias, como a construção de um novo estábulo para os cavalos.

Tudo isso, é claro, dentro dos padrões de manejo exigidos pela certificadora orgânica Ecovida Rede de Agroecologia.

O ritmo do trabalho na fazenda do Marcos avançava segundo a disponibilidade de mão de obra. Com um ajudante e dois voluntários, até que conseguíamos trabalhar bem, mas se tivesse pelo menos mais um funcionário em tempo integral, a produtividade poderia ser aumentada em várias vezes. Esse tipo de solução chegará em seu tempo, quando a CSA de Bocaiúva do Sul estiver mais madura e com mais membros.

CSA, ou Comunidade que Suporta a Agricultura, é um modelo de distribuição da produção agrícola na qual um grupo de consumidores financia as atividades produtivas com antecedência, recebendo o resultado da colheita em cestas semanais. Este modelo já é bem utilizado em outros países como Estados Unidos, Japão, Suíça, Alemanha, Inglaterra e França, mas só em 2011 chegou ao Brasil.

Apesar de já ter estudado sobre o modelo, foi na fazenda do Marcos que tive contato direto com a CSA, seus desafios e oportunidades.

Na foto, as caixas da colheita de segunda-feira, todas destinadas aos coprodutores da CSA de Bocaiúva do Sul. Nessa colheita, realizada em dezembro de 2017, tivemos repolho, almeirão, rúcula, batata-doce, couve, cebolinha, banana, laranja, rabanete e mandioca.

Na foto, as caixas da colheita de segunda-feira, todas destinadas aos coprodutores da CSA de Bocaiúva do Sul. Nessa colheita, realizada em dezembro de 2017, tivemos repolho, almeirão, rúcula, batata-doce, couve, cebolinha, banana, laranja, rabanete e mandioca.

Agrofloresta, uma ideia que se espalha

Marcos fez questão de ampliar o alcance da agrofloresta para além de sua propriedade, convencendo vizinhos e amigos, que também começaram a se interessar por essa nova abordagem. Evandro é um deles. Depois de anos cultivando do jeito tradicional para atender às demandas do CEASA do Paraná, resolveu parar tudo e recomeçar com o sistema orgânico, com feijão, milho e suas galinhas.

Evandro alimenta suas galinhas com podas e sobras da colheita do Marcos (2017). Em sua propriedade já utiliza as práticas da agricultura biológica e logo deve conseguir a certificação orgânica para sua produção de ovos, frango, feijão, milho e fubá.

Evandro alimenta suas galinhas com podas e sobras da colheita do Marcos (2017). Em sua propriedade já utiliza as práticas da agricultura biológica e logo deve conseguir a certificação orgânica para sua produção de ovos, frango, feijão, milho e fubá.

Para os próximos anos, Evandro já tem um projeto em mente: o cultivo de uvas em um sistema agroflorestal. As galinhas farão a sua parte, de catar os insetos prejudiciais às parreiras, comer os brotinhos das plantas daninhas, deixando o terreno limpo para o desenvolvimento da uva. A produção de suco e a venda de uva de mesa são os próximos objetivos desse agricultor natural de Bocaiúva.

Descubra como fazer parte da CSA de Bocaiúva do Sul.


Agradecimentos - Ao Marcos Anãma, por me receber em sua propriedade. Ao Baptiste Lassaigne , que também era voluntário na época em que estive lá. Ao Evandro, pela hospitalidade e simpatia. À Edna Muff, que me apresentou o Marcos e ao CPRA - Centro Paranaense de Referência em Agroecologia, que me fez conhecer a Edna por meio de um dos seus excelentes cursos abertos sobre agricultura orgânica.

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